4 de maio de 2011

Jornais transformam filmes em notícias

     Por  Joyce Rocha

Há uma tentativa consciente e inconsciente de se mercantilizar o cinema brasileiro, passo importante para a efetivação de uma indústria cinematográfica. Com a repercussão na mídia desses filmes de sucesso, jornais tentam transformá-los na fórmula salvadora do cinema brasileiro. O sucesso de Cidade de Deus e Carandiru já até levantou a idéia de que filme brasileiro, para se fazer público, tem de abordar a realidade.  

Formatar o cinema ao gosto do público é algo extremamente duvidoso, se compararmos com o coeficiente qualidade e audiência na televisão, negligente com a função artística do cinema. Os lixos televisivos aos quais assistimos hoje estão voltados para captar anunciantes e satisfazer a fome de vendas destes via altos índices de audiência. O cinema, como é feito hoje, atua com mais liberdade porque o filme já está pago e não há a contrapartida financeira. Por um lado, isso gera certo sentimento de “irresponsabilidade de público” (o filme, já estando pago, não sofre pressão para ser exibido e recuperar o investimento), mas, por outro, libera o agente para fazer o que achar melhor em termos de criação, sem ceder em pontos importantes no quesito mercadológico.


O cinema brasileiro sempre foi tratado como exceção dentro de seu próprio país. Os menos de 10% de ocupação do mercado atingidos nos últimos anos não condizem com o tamanho da dominação estrangeira sobre o mercado exibidor nacional. A mídia festejar dois ou três filmes é saudável quando abre a discussão e não a encerra. O sistema nunca deve ser fechado numa solução fácil. Mas, como fazem, ou seja, partir disso para afirmar que o cinema brasileiro está “muito bem, obrigado” ou querer com esses exemplos ditar o caminho para a implantação de uma indústria, é falácia liberal. O discurso da maior parte da imprensa e de diretores/produtores está inserido nesse contexto de mercantilização do cinema, de homogeneização de um cinema que nos últimos anos se destacou pela pluralidade de linguagem, estéticas, temáticas e estilos.

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